Aos domingos e feriados, ela costuma estar sempre lá, na mesma curva, sob
uma árvore frondosa, quase chegando no lago, para quem vem da praça do
Porquinho, logo depois da Rua do Bambuzal (assim eu batizei essa formosa
alameda, onde os bambus de lado a lado se encontram, criando uma paisagem de
sonho).
Estou falando do Parque do Ibirapuera (em São Paulo), esse lugar sagrado que
despertou meu gosto pelas caminhadas longas e solitárias, que faço quase
diariamente. E também daquele ser humano que trabalha de pé, ou às vezes
sentado num banquinho, horas a fio quase sem se mover, representando
uma estátua.
Pois bem, nos dias comuns, muito menos nos horários de pouco movimento em que
geralmente caminho por lá, ela não vem a Estátua. Mas nas manhãs
ensolaradas dos domingos você pode vê-la, ainda se ataviando com suas
fantasias, ora vestindo roupas toscas, ora trajando um vestido branco
longo e rodado, se maquiando e, por fim, se equilibrando num pequeno
pedestal.
E fica lá, parada, por muitas horas. Quem passa ao lado conversando e andando
depressa, muitas vezes alheio mesmo aos encantos desta primavera, talvez nem a
veja. E, se vir, poderá pensar, numa olhada rápida, que é mesmo uma
estátua de pedra ou gesso, tal é sua imobilidade.
Bem poucos são os que interrompem um momento suas caminhadas para apreciar a sua
arte; em geral são crianças as que mais a admiram, e quando seus pais lhes
dão uma moeda para colocar na caixinha, a estátua,
muito lentamente, faz um gracioso movimento e lhe dá uma pequena prenda,
perante os olhos arregalados do gentil espectador.
Pois trata-se, sem dúvida, de uma arte, e das mais difíceis. Que disciplina
é preciso para ficar ali, sem conversar, sem andar, numa posição que não parece
confortável, numa atitude tão contemplativa! E eu me pergunto o que
haverá na caixinha, ao cair da tarde, para o artista; talvez, o suficiente para
uma boa refeição?
Esse é o trabalho dele: ficar ali imóvel, sem fazer nada, sem
companhia, com tão escassas recompensas... num pequeno cartaz, ao pé da
caixinha, o artista informa seu nome e telefone, para apresentações
performáticas.
Estou sempre observando profissionais de vários setores imersos em suas
atividades, como os motoristas de ônibus, conduzindo dezenas de passageiros
por ruas e avenidas superlotadas, caixas de supermercados
pressionados pelo stress dos clientes, operadores de
telemarketing naquela mesma toada repetitiva,
técnicos de análises clínicas às voltas com exames de fezes,
sangue e urina, vigias de estacionamentos
controlando entrada e saída de veículos, garçons de
pé servindo refeições e limpando mesas,
bilheteiros de cinema fazendo um serviço mecânico,
entre tantos outros...
E penso comigo: como devem ser árduas suas horas de trabalho!
Mas nada que se compare à Estátua. Quantos de nós conseguiriam ficar ao menos
uma hora ali, naquela posição, ganhando tão pouco, e sendo tão perfeitamente
ignorados por milhares de pessoas de bem que passam bem ao lado, imersos
em suas questões?
E o artista, também não estará ele cheio de ansiedades? Não estará
atormentado por desejos e necessidades, dívidas, aluguel
vencido, conflitos afetivos? Será que a solidão, o medo e a dor não o
atingem? e as preocupações com o dia de amanhã, talvez com filhos
pequenos, ou com parentes idosos, enfim, confrontado com a incerteza da
trajetória humana rumo à morte, cheia de dolorosos acidentes de percurso?
A maioria das profissões tende a fazer o indivíduo sair de si mesmo e se
envolver com um mar de tormentos externos o patrão exigente, o trabalho
desagradável e não criativo, o ruído, o calor, as cobranças, desafios e
perturbações de todo tipo que são, de longe, mais suportáveis do que o
tormento interior.
Em nossa cultura valoriza-se o movimento, não a imobilidade;
a comunicação verborrágica, não a quietude; a eterna ocupação mental, não
o testemunho equânime dos nossos próprios conteúdos mentais.
Não queremos contemplar-nos em nossa totalidade. Não somos inteiros; ao
contrário, somos fragmentados e cindidos interiormente, pois rejeitamos alguns
desses conteúdos e nos apegamos a outros, surgindo daí as contradições,
pois, não raramente, recusamos o que somos, odiamos e amamos a mesma coisa,
desejamos o que nos despreza, rejeitamos o que nos faz bem, gerando o
arrependimento, a dor, a esperança...
Por isso, preferimos absorver-nos em uma atividade, em nossa profissão, num
filme, no futebol, em qualquer coisa, do que ficar
expostos a nós mesmos, como faz a Estátua: ali, imóvel e silente
naquele recanto bonito, fresco e sombreado do Parque, criam-se condições
favoráveis para que as borboletas e os marimbondos
da sua Caixa de Pandora (que
também é tão nossa!) possam sair livremente de seus recessos obscuros.
Por isso, parece-me que a Estátua viva fica vulnerável a si mesma, uma vez
que não tem para onde fugir. Não é só o sacrifício físico (o que já seria
bastante) o que está envolvido nesse tipo de trabalho é também, e talvez
principalmente, a contemplação dos conteúdos ancestrais da espécie humana,
centrados no medo: o mecanismo do tempo interior gerando ansiedade; as mágoas,
culpas e frustrações emergindo de suas tumbas; o desejo de resolver o passado,
mudar as coisas no presente, de ser feliz no futuro...
Percebem como é duro ser Estátua? a paga é pequena e o sacrifício é
grande.
Entretanto, a Estátua é uma coisa surpreendente, que embeleza o Parque; na
Aclimação ela fica perto de uma fonte, toda branca, ao lado da água corrente. É
a alegria das crianças. E o fato de que ela não tenha utilidade na ordem das
coisas práticas da vida cotidiana não lhe retira o significado.
Afinal, que significado tem uma bela pedra? e um caminho sinuoso na colina,
ladeado de flores? que utilidade têm as nuvens rosadas do crepúsculo? Não
se pode exigir utilidade das coisas belas. E uma visão de mundo totalmente
voltada para as coisas utilitárias traz consigo uma completa falta de sentido,
pois...
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.